3# BRASIL 3.9.14

     3#1 QUEM SEGURA ESTA MULHER?
     3#2 A PRIMEIRA BAIXA
     3#3 EU SEI BEM A QUEM DEVO
     3#4 DE BOCA EM BOCA

3#1 QUEM SEGURA ESTA MULHER?
A menos de cinco semanas da eleio, PT e PSDB empurram um para o outro a responsabilidade pela arriscada operao de atacar Marina, que segue em disparada com seu discurso inatacvel: a favor de tudo o que  bom e contra, tudo o que e ruim.
MARIANA BARROS, BELA MEGALE E DANIEL PEREIRA

     A stira circula freneticamente nas redes sociais: "Marina, voc vai querer carne, frango, peixe, massa ou salada'?". Responde a candidata do PSB  Presidncia da Repblica: "Eu acho que a gente tem de parar com os rtulos. Ningum  dono da verdade. Todos os pratos tm coisas boas e ruins. Eu quero o que tem de bom em cada um deles e quero tirar o que tem de ruim. Essa coisa de achar que tem de escolher um prato  a velha refeio. Vamos comer tudo, desde que preparado com eficincia e viso estratgica. Isso  a nova refeio". A sabedoria coletiva da rede digital acertou em cheio na mais evidente fragilidade da candidata que disparou na frente de Dilma Rousseff e Acio Neves, deixando meio mundo perplexo. A crtica espirituosa na internet brinca, para ficarmos na metfora gastronmica, com a evidente impossibilidade prtica de fazer omelete sem quebrar ovos  o que em Braslia equivale a governar sem contrariar interesses. 
     O mais espantoso no  Marina Silva fazer campanha com a promessa simplria de liderar as foras do bem em uma cruzada cvica contra as do mal na poltica. O espanto est em as pessoas  dezenas de milhes de eleitores, como se constata por seu desempenho nas pesquisas de inteno de voto  acharem que vale a pena dar-lhe uma chance. O sucesso evidente de Marina nas pesquisas a coloca a pouco mais de quatro semanas de conseguir essa chance nas urnas. Com to pouco tempo, como mostra a Carta ao Leitor desta edio, para ela ser conhecida de verdade, o fenmeno Marina  uma inegvel realidade eleitoral, fato que nada revela sobre como seria um governo com ela  frente do Executivo. Nos debates, nas entrevistas e no programa de governo entregue ao TSE na sexta-feira passada, ela deu garantias inequvocas de compromisso com uma poltica econmica adequada a um Brasil moderno, dinmico, sintonizado com o mundo. Isso  animador. At 5 de outubro, data das eleies em primeiro turno, no entanto, Marina precisa mostrar como e com que equipe pretende administrar o Brasil  e, principalmente, quais so seus planos para amarrar o guizo no pescoo do tigre no Congresso Nacional, do outro lado da Praa dos Trs Poderes. A turma ali no  brinquedo. Quase todos os presidentes em perodos democrticos  os puros e os venais, os bons de conversa e os dures, os populares e os detestados pelo povo  que tentaram cavalgar o tigre terminaram dentro da barriga do bicho. Que ningum se iluda: para Marina conseguir governar, ter de contar com apoio no Parlamento. Como? Negociando. Com que moeda de troca? O Brasil espera que no seja a mesma que vem sendo utilizada at aqui. Faria um bem enorme a Marina e a seus seguidores que eles se lembrassem da sbia constatao de James Madison quando, depois de vencerem o mal (a Inglaterra), os bons (os fundadores dos Estados Unidos) discutiam sobre como funcionaria a nova poltica. Madison escreveu: "Se os homens fossem anjos, nenhuma forma de governo  seria necessria. Se fosse dado aos anjos governar os homens, igualmente, nenhuma forma de controle sobre o governo, seja interna ou externa, seria necessria. Mas, como estamos esboando um governo em que homens vo mandar em homens, temos de enfrentar as dificuldades de criar controles mtuos". 
     Marina pode concorrer como anjo  e est concorrendo , mas vai governar e negociar com seres humanos, espcie que j deu mostras de no se adaptar a nenhum arranjo de poder que, para funcionar, exija desapego material, sentimento de igualdade e renncia s ambies de todo tipo. Estudioso dos grupos de animais em que a coeso  garantida pela cooperao desinteressada com o prximo, o bilogo E.O. Wilson, de Harvard, disse: "Socialismo. Regime certo. Espcie errada". Mostrada como a encarnao da bondade, fica difcil para os concorrentes atacar Marina. "Ela  um alvo que pode fazer a artilharia se voltar contra o atirador", diz um integrante da campanha da presidente Dilma Rousseff. Com razo. Como apontar como fraqueza de Marina sua inexperincia administrativa? Na campanha o argumento no cola desde que se tentou, em vo, us-lo contra Lula. J no campo de Acio Neves, o candidato do PSDB, fica difcil engrandecer o senador mineiro com a nfase no seu projeto de Brasil, uma arquitetura slida baseada em timas ideias e grandes realizaes como governador. Marina representa o sonho. Acio, o projeto. Como mostrou a pesquisadora americana Cynthia Emrich em um estudo sobre retrica, carisma e grandeza em presidentes americanos, quando candidato e eleitores tm o mesmo sonho a liga  quase inquebrantvel. Ela ilustra esse ponto com a seguinte conjectura: "Se em seu famoso discurso em Washington o lder negro Martin Luther King. em vez de dizer 'Eu tenho um sonho', tivesse dito ;Eu tenho um projeto', seria esquecido na semana seguinte". 
     Por essa e outras razes  que Acio e Dilma esperam que o outro bata em Marina. "Ou Dilma mata a Marina agora ou  ela quem estar morta depois", avaliou um coordenador da campanha de Acio. Na equipe petista, a lgica  inversa: "Vamos continuar defendendo o governo e apresentando propostas para o futuro. E deixar o papel de bater na Marina para o Acio, que  o mais prejudicado pela candidatura dela", diz um integrante da cpula da campanha. 
     O mximo que estrategistas recomendam at o momento aos seus candidatos so esforos, ensaiados ao longo da semana que passou, para pintar Marina como uma "aventura" de futuro incerto. A comparao nos bastidores  com o ex-presidente e aventureiro Fernando Collor de Mello, mas ningum ousou lev-la a pblico at agora. No QG dilmista, a ordem  apenas insinuar crticas a Marina, pondo em dvida, por exemplo, sua capacidade de descer do plano "sonhtico" para o real. 
     No so apenas as circunstncias a impor limites ao ataque petista, porm. Numa de suas primeiras tentativas de desconstruir o discurso de Marina sobre "governar com os melhores de todos os partidos", Dilma teve outro de seus desencontros com a lngua portuguesa. Disse a presidente: "Eu acho que as pessoas no tm de ser ms, no tm de ser... todas as pessoas so... podem ser boas ou podem ser ms. Mas as boas pessoas podem no ter compromisso. A pessoa  muito boa, mas o compromisso dela  com outra coisa". Por esses motivos, o jogo pesado contra Marina ser terceirizado para a falconaria petista e, se for necessrio, para os locutores da propaganda na TV e no rdio. Na linha de frente, os pit bulls de sempre: Rui Falco, presidente do PT, e Franklin Martins, ex-ministro da Comunicao Social. 
     Enquanto eles batem, um grupo de ministros e de assessores graduados do governo j recebeu ordens de percorrer as cidades com at 50.000 habitantes, onde est o grosso do eleitorado de Dilma, a fim de garantir a fidelidade  presidente. Na sexta (29) o Datafolha divulgou uma nova pesquisa que mostra Dilma e Marina empatadas com 34%. 
     Do lado do candidato Acio Neves, que apareceu com 15%, a estratgia  concentrar esforos na tentativa de "chamar  razo" os eleitores tradicionais do PSDB, mais ricos e escolarizados, e os ex-indecisos que pularam para  o barco de Marina nas ltimas semanas. A ideia  mostrar que a ex-senadora no tem um projeto de governo consistente e que lhe faltam condies para realizar com segurana as mudanas necessrias para o pas. Foi para reforar o argumento de que,  diferena da ex-senadora, ele tem um projeto e um time que Acio anunciou, ao fim do debate na Band, na tera passada, o nome do ex-presidente do Banco Central Armnio Fraga como seu ministro da Fazenda, em caso de vitria. 
     O tempo corre contra a razo. Marina  uma candidata extraordinria, mas isso no far dela, automaticamente, uma presidente extraordinria. Eis o dilema dos brasileiros s vsperas de eleger um novo presidente da Repblica. 

MOMENTOS DE APERTO
Como se saram os candidatos diante das perguntas difceis no debate da BAND, o primeiro desta campanha eleitoral.

DILMA ROUSSEFF
Perguntas
Vai ou no alterar a poltica econmica?
RESPONDEU QUE: a culpa pelo baixo crescimento do pas  da crise externa, a inflao est sob controle e seu governo vai investir em infraestrutura. Deixou a pergunta sem resposta. NO CONVENCEU

No deveria pedir desculpa pela gesto temerria da Petrobras?
RESPONDEU QUE: o valor da estatal aumentou de 15 bilhes para 110 bilhes de dlares. Ela ignorou o fato de que a empresa chegou a valer mais de 300 bilhes de dlares e chafurda em escndalos. NO CONVENCEU

Tem uma proposta para diminuir a criminalidade?
RESPONDEU QUE: o governo federal vai manter os centros de controle integrados criados para a Copa do Mundo, que de fato contriburam para a reduo do ndice de criminalidade no perodo. CONVENCEU

Apoiar o projeto do PT de controle social da mdia, ao qual se diz contrria?
RESPONDEU QUE: a liberdade de imprensa e de expresso  um valor bsico da democracia. Mas no rechaou a postura do PT e defendeu a "regulao econmica" dos meios de comunicao, "como (h) na telefonia e nos portos. NO CONVENCEU

O governo insistir no decreto bolivariano por meio do qual decises de governo so tomadas por "conselhos de participao social"? 
RESPONDEU QUE: o poder dos conselhos  meramente consultivo, o que no est dito no texto enviado ao Congresso. NO CONVENCEU

MARINA SILVA
Perguntas
Tem uma proposta para diminuir a criminalidade?
RESPONDEU QUE: defende uma "ao integrada da polcia" e um "pacto pela vida", sem apontar nenhuma medida prtica de combate ao crime. NO CONVENCEU

Falta coerncia  "nova poltica", visto que recusou o apoio de Alckmin, mas aceitou o de Serra, a quem no apoiou em 2010?
RESPONDEU QUE: fazer a nova poltica  contar com os melhores quadros de cada partido, mas no explicou como pretende faz-los aderir a seu governo. NO CONVENCEU

Sua viso de "nova poltica" significa implementar a poltica econmica do PSDB?
RESPONDEU QUE vai, sim, manter o trip da poltica econmica instalado no pas pelos tucanos e que reconhece os mritos tanto da estabilizao econmica de Fernando Henrique quanto dos avanos sociais de Lula. CONVENCEU

O radicalismo ambientalista que lhe atribuem seria um entrave ao desenvolvimento econmico?
RESPONDEU QUE: no ope desenvolvimento a preservao ambiental e citou licenas importantes concedidas em sua gesto no Ministrio do Meio Ambiente, como a da Usina de Jirau. CONVENCEU 

Apoia a incluso do criacionismo na grade curricular das escolas?
RESPONDEU QUE: defende o estado laico e nunca, em dezesseis anos de atividade parlamentar, apresentou nenhum projeto sobre o tema. CONVENCEU 

ACIO NEVES
Perguntas
Concorda que "800.000 mulheres que fazem aborto todos os anos sejam consideradas criminosas"?
RESPONDEU QUE: defende a manuteno da lei atual, que s permite a interrupo da gravidez em casos de risco  vida da me ou de estupro. CONVENCEU 

Tem uma proposta para diminuir a criminalidade?
RESPONDEU QUE: vai propor reformar o Cdigo Penal para diminuir a impunidade e integrar a Polcia Civil e a Militar. CONVENCEU 

Tomar medidas impopulares para impulsionar a economia?
RESPONDEU QUE: est "preparado para fazer o Brasil voltar a crescer e gerar empregos de qualidade cada vez melhor", mas no disse se far os ajustes que considerar necessrios ainda que sejam impopulares. NO CONVENCEU

Vai manter os programas sociais ou acabar com eles?
RESPONDEU QUE: manter programas como o Bolsa Famlia e lanar outros, como um criado em Minas que premia com 3000 reais, no fim do ensino mdio, os estudantes da rede pblica com bom desempenho. CONVENCEU 

Criar conselhos de participao popular?
RESPONDEU QUE:  contra, pois no h garantia de que esses conselhos no se sobreporiam ao Executivo ou ao Congresso. CONVENCEU

A TAL HISTRIA DO JATINHO
     A quem pertencia, afinal, o jato Cessna que caiu em Santos naquela manh de 13 de agosto matando sete pessoas, entre as quais Eduardo Campos? O avio era usado pelo candidato do PSB desde maio para se deslocar pelo pas em campanha, como  comum em poca eleitoral entre polticos em busca de votos e sem tempo a perder em sagues de aeroportos. Desde o acidente, porm, h mais de duas semanas, o PSB de Campos - e tambm de Marina Silva - no consegue dar uma resposta sobre a propriedade do jato. O avio estava em nome da AF Andrade Empreendimentos e Participaes Ltda., uma empresa de usineiros de Ribeiro Preto (SP), que alega ter vendido o aparelho em maio a outro usineiro, o pernambucano Joo Carlos Lyra de Mello Filho, por um valor estimado em mais de 15 milhes de reais. At a, Lyra confirma ter comprado o avio. O problema  que, para isso, ele  utilizou empresas-fantasma, em nome de pessoas pobres e com sede localizada em casas na periferia de Recife. Foi por meio delas que Lyra quitou parte das primeiras parcelas, que somam 1,7 milho de reais. 
     Investigadores envolvidos no inqurito aberto para apurar as causas do acidente que matou Campos tm trs hipteses principais para explicar o caso: as empresas-fantasma podem ter sido utilizadas para repassar o dinheiro usado pelo PSB para comprar o aparelho e esse dinheiro foi recebido "por fora", ou seja, via caixa dois. Hiptese nmero dois: as empresas-fantasma entraram no circuito para esconder o real proprietrio da aeronave, que, por algum motivo, ainda no pde ser identificado. Hiptese nmero trs: o esquema poderia ser uma forma de o prprio Lyra, proprietrio da aeronave, sonegar impostos ou "lavar dinheiro". Novamente: so apenas hipteses, formuladas por investigadores indiretamente envolvidos no caso, j que s na sexta-feira o procurador-geral eleitoral, Rodrigo Janot, determinou a abertura de investigao destinada especificamente a apurar o uso do avio pela campanha de Marina e Campos. 
     Comprovada alguma das situaes aventadas, isso criaria, no mnimo, um grande desconforto para uma candidatura que prega o rompimento com os vcios da poltica - jatinhos emprestados e corrupo so um clssico da velha poltica, como mostra o caso recente do deputado Andr Vargas (PR), sob risco de cassao por ter aceitado carona num avio pago por um doleiro. A impugnao da candidatura de Marina  considerada por especialistas um cenrio extremo e improvvel.
ALANA RIZZO

A "NOVA POLTICA" DE CARA NOVA
Para a entrevista ao Jornal Nacional na quarta-feira, Marina trocou o visual modesto por outro quase majestoso. Tirou os pesados culos vermelhos que tinha usado na noite anterior, exibiu as sobrancelhas feitas e uma maquiagem suave (o batom   base de beterraba e o restante, de uma linha especial hipoalergnica, da marca canadense MAC, por causa de sua intolerncia a cosmticos tradicionais). O cabelo arrumado num coque alto aprumou seu porte e alongou o pescoo, quase sempre escondido por xales. As bijuterias que ela mesma faz dessa vez ficaram na gaveta. O responsvel pela produo foi o maquiador Marcos Padilha, a quem Marina recorre em momentos estratgicos. Mas  sempre ela quem diz o que quer. Padilha s sugere formas de execuo. O nico trao que lembrava a sua imagem antes de disparar nas pesquisas era a roupa, comprada em uma loja de aeroporto, a Ftima Rendas. Marina quis repetir o modelo, usado na conveno do PSB que sagrou Eduardo Campos candidato, para passar uma "ideia de continuidade".

A FALCONARIA PETISTA
Dilma Rousseff no vai partir para o embate frontal com Marina por enquanto, mas nos bastidores o contra-ataque petista est em curso. O ex-ministro da Comunicao Social Franklin Martins e o presidente do PT, Rui Falco, experts na ttica de guerrilha contra os adversrios, j deflagraram a ordem de atacar a ex-senadora por onde for possvel. Na linha de frente, estaro as irregularidades envolvendo o avio usado pelo PSB, as inconsistncias da poltica de alianas e as contradies de seu discurso "sonhtico".

NO CALOR DO POVO
Depois da subida de Marina, Dilma Rousseff intensificou sua agenda de rua (na foto, em almoo em Bangu com Anthony Garotinho, favorito na disputa do governo do Rio).

O MINISTRO DA CREDIBILIDADE
A ideia de mostrar que faltam a Marina Silva um time e um projeto de governo para realizar com segurana as mudanas necessrias para o pas foi o que fez o candidato Acio Neves anunciar o nome do ex-presidente do Banco Central Armnio Fraga como ministro da Fazenda de seu governo.

CONQUISTAR OU MORRER
Na campanha de Acio, a esperana  recuperar o voto dos mais escolarizados e indecisos que migraram para a candidata do PSB.

COM REPORTAGEM DE PIETER ZALIS, ADRIANO CEOLIN E GIAN KOJIKOVSKI


3#2 A PRIMEIRA BAIXA
A Petrobras afasta do cargo o gerente da empresa que participou da trama para enganar o Congresso na CPI que investiga irregularidades na estatal.

     A trama destinada a fraudar a CPI da Petrobras fez sua primeira vtima na semana passada. Jos Eduardo Barrocas, um dos artfices da farsa revelada por VEJA h um ms, perdeu o cargo de chefe do escritrio da companhia em Braslia. Homem de confiana da presidente da Petrobras, Maria das Graas Foster, Barrocas desempenhava um papel crucial, especialmente nestes tempos em que a maior estatal brasileira se transformou em um grande caso de polcia. Desde 2012, ele era encarregado de intermediar o relacionamento formal da companhia com polticos em geral. Se a Petrobras tinha interesses no Congresso, cabia a Barrocas sair a campo para resolver. Na via oposta, se polticos tinham interesses na Petrobras, tambm era ele o primeiro canal de contato.  algum que sabe muito  e, portanto, merece alguma deferncia. Em vez da demisso, uma conveniente transferncia para o Rio de Janeiro, sua cidade de origem, onde passar a dar expediente como assessor no gabinete da presidncia da estatal. 
     Barrocas foi "transferido" pouco antes de ter de comparecer  Polcia Federal para explicar sua participao na farsa da CPI. Seu papel na histria o coloca como algum cujo testemunho pode ser decisivo. Se contar o que sabe, pode seguramente ajudar os investigadores a desvendar a cadeia de comando por trs da fraude. O ex-gerente  o protagonista do vdeo que desnudou a trama: em uma reunio com dois funcionrios do corpo jurdico da estatal, ele conta os detalhes de como os ex-dirigentes da petroleira investigados pelo Congresso recebiam antecipadamente as perguntas que seriam feitas pelos parlamentares. Revelado por VEJA, o caso envolveu, alm da cpula da Petrobras, funcionrios do Palcio do Planalto e da liderana do PT no Senado. A CPI, criada para apurar suspeitas de corrupo em contratos bilionrios da Petrobras, era palco de uma encenao. Foi assim no depoimento do ex-presidente da companhia Srgio Gabrielli, e foi assim no depoimento do ex-diretor Nestor Cerver, apontado como responsvel maior pelo prejuzo bilionrio da estatal na compra da refinaria de Pasadena (EUA). A prpria Graa Foster teria recebido antecipadamente o roteiro combinado com a CPI  ou o "gabarito", como Barrocas balizou. O advogado Bruno Ferreira, um dos participantes da reunio, j foi ouvido pelos policiais. Nada falou. O depoimento de Barrocas est programado para os prximos dias. 
HUGO MARQUES


3#3 EU SEI BEM A QUEM DEVO
Mensagens da Casa Civil da Presidncia da Repblica revelam como funciona a troca de favores entre autoridades e seus padrinhos polticos. Ministro do TCU conseguiu indicar a esposa para o Superior Tribunal de Justia e o irmo para o Tribunal Superior do Trabalho com a ajuda de Dilma Rousseff. Antes disso... 
ROBSON BONIN E HUGO MARQUES

     No organograma dos poderes, o Tribunal de Contas da Unio (TCU) exerce o papel de guardio dos cofres pblicos. Do superintendente de uma repartio federal na Amaznia ao presidente da Repblica, ningum est livre de prestar contas ao rgo.  do TCU a misso de identificar e punir quem rouba e desperdia dinheiro pblico, seja um servidor de terceiro escalo, um ministro de Estado ou uma dezena de diretores da Petrobras. Enfrentar interesses poderosos  da natureza do trabalho do tribunal. Por isso, seus ministros gozam de prerrogativas constitucionais, como a vitaliciedade no cargo, destinadas a lhes garantir autonomia no exerccio da funo. No mundo ideal, o TCU  plenamente independente. Na prtica, troca favores com o governo, sujeita-se s ordens do Palcio do Planalto e, assim, contribui para alimentar a roda do fisiologismo, mal que a corte, em teoria, deveria combater. VEJA teve acesso a um conjunto de mensagens que mostram que h ministros dispostos a servir aos poderosos de turno a fim de receber generosas contrapartidas, como a nomeao de parentes para cargos de ponta. 
     Trocadas durante o segundo mandato do presidente Lula, as mensagens revelam o ministro Walton Alencar, inclusive quando comandava o TCU, no pleno gozo de uma vida dupla. Nos julgamentos em plenrio e nas manifestaes pblicas, Walton era o magistrado discreto, de perfil tcnico, que atuava com rigor e independncia. Em privado, era o informante, os olhos e os ouvidos no TCU de Dilma Rousseff,  poca chefe da Casa Civil, e de Erenice Guerra, ento brao-direito da ministra. Walton ps o cargo e a presidncia do tribunal a servio da dupla. E o fez no por mera simpatia ou simples voluntarsmo. Em troca, ele recebeu ajuda para emplacar a prpria mulher, Isabel Gallotti, no cargo de ministra do Superior Tribunal de Justia (STJ). A trama toda ficou registrada em dezenas de mensagens entre Walton e Erenice, apreendidas em uma investigao da Polcia Federal. Com a colaborao das mulheres mais poderosas do Palcio do Planalto no segundo mandato de Lula, Walton conseguiu mobilizar um espantoso generalato de autoridades para defender a indicao da esposa. 
     Em e-mail enviado em 12 de maro de 2008, Erenice relata os movimentos dela e de Dilma em favor de Isabel: "Oi, Walton. Conversei com o Sigmaringa Seixas, que se prontificou a nos apoiar. O Romero Juc (ento lder do governo no Senado) prontamente se comprometeu a nos apoiar. O presidente (da Cmara) Adindo Chinaglia tambm nos apoia. Dilma e eu conversamos com o ministro Toffoli (do Supremo), que tambm nos apoia. Dilma conversou com o ministro (da Justia) Tarso Genro, que tambm nos apoia. Esse  o estado da arte at o momento. Se voc lembrar de algum com que devamos falar, me avise. Continuamos em campanha". Com tantos apoiadores influentes, o lobby de Walton parecia fadado ao sucesso. Mas havia dois obstculos importantes. Um deles era a determinao de Lula de indicar um negro para o STJ, como fizera antes no caso do Supremo Tribunal Federal (STF). O nome preferido era Benedito Gonalves. O outro obstculo era o fato de Gonalves ter mais prestgio no mundo jurdico do que Isabel. Numa mensagem em 15 de julho de 2008, Walton se queixa a Erenice: "O presidente Lula disse que haveria problemas (a Isabel  a terceira da lista, o Benedito j entrou em lista, a Isabel  jovem) e que iria me chamar para conversar. (...) O fato de o Benedito j ter entrado em lista no significa nada. Somente que ele trabalha desde muito tempo, o que no significa que ele  o candidato mais capacitado para servir ao pas". 
     Walton chega a pedir orientaes a Erenice para continuar o lobby em favor da mulher. "Estou fazendo algo errado? Devo entrar no cone de sombra? Devo procurar mais apoios? Quem? Ministros do STF, por exemplo?", pergunta o ento presidente do TCU. Apesar de todo o esforo de Dilma e Erenice, Isabel perdeu a vaga naquele ano para Benedito. Walton fez questo de registrar gratido s autoridades poderosas: "No tenho palavras para a ministra Dilma! Ela aguentou tudo sozinha (...) O senador Sarney vai falar em favor da Bel com o presidente da Repblica. Eu sei bem a quem devo por estar no jogo. Mas um pouco mais de respaldo no faz mal". O tempo  o senhor da razo e tambm dos lobbies bem-sucedidos. Em agosto de 2010, quando Erenice j era chefe da Casa Civil e Dilma candidata a presidente, Lula nomeou "Bel" ministra do STJ. Walton sabia bem a quem devia, como fez questo de ressaltar na mensagem, e tratou de pagar a conta religiosamente antes e depois de receber a mercadoria. No caminho para concretizar as ambies de sua mulher, ele realizou diferentes servios para o governo. Foi assim em 2008, no auge da crise do dossi dos gastos secretos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, escndalo que atingiu em cheio a Casa Civil, acusada de vazar os dados sigilosos. 
     Como presidente do TCU, Walton recebia consulta de jornalistas sobre o trabalho do rgo no caso e repassava as informaes da imprensa ao Planalto em tempo real. Em 26 de maro de 2008, ele escreveu a Erenice: "Estou acompanhando o imbrglio da Folha de S.Paulo em relao aos cartes corporativos. H vrios dias tentam falar comigo ou com o relator. No conseguiram uma palavra! No sei de onde vm as informaes que fazem (sic). Vi na internet hoje que a Folha diz isto: 'O TCU no se manifestou oficialmente ontem, mas insiste em que no...'. No sei de onde vem essa afirmativa que o TCU insiste em... O presidente no falou, o relator no falou... como o TCU insiste?". A divulgao do dossi deu origem a uma CPI dos Cartes Corporativos. Dilma e Erenice eram alvos da investigao. Na presidncia do TCU, Walton fez o que pde para blindar a dupla e atrapalhar a apurao realizada pelos parlamentares. No auge da crise, ele foi ao Senado para se reunir com a presidente da CPI, Marisa Serrano, e com o ento presidente da Casa, Garibaldi Alves. As mensagens de 1 de abril de 2008 revelam que o presidente do TCU manteve Erenice informada inclusive dos pleitos apresentados pelos dois senadores no encontro: "Ela (Marisa) quer os documentos e processos do TCU. Informei, por terceiros, que s os remeteria se aprovado o requerimento na comisso. Ela parece furiosa conosco (TCU)". Lembro que ele foi extremamente rigoroso na reunio. Mas, se tinha alguma outra inteno com isso, no deixou transparecer", recorda a ex-senadora. 
     Uma mensagem de 16 de junho de 2008 mostra que Walton tambm abria sua agenda de presidente para receber advogados indicados por Erenice. Um deles prestara servio antes ao PT. Como se sabe, ter acesso fcil a gabinetes rende prestgio e possibilidades de negcio. "O dr. Mrcio Silva  advogado eleitoral e sempre advogou junto com o ministro Toffoli as questes do senhor PR (presidente da Repblica). Ele gostaria de conversar com voc acerca de decises do TCU e implicaes na lei eleitoral", escreveu Erenice. A parceria seguia intensa. Entre 2008 e 2010, Walton foi acionado vrias vezes para socorrer o ex-diretor da Agncia Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) Bernardo Figueiredo em processos que tramitavam no tribunal. Figueiredo  um tcnico muito prximo a Dilma Rousseff. Nos bastidores de Braslia, era tratado como "superministro" da infraestrutura. Walton agiu para impedir que ele fosse condenado por supostas irregularidades na ANTT. Alm de alertar Erenice sobre a tramitao do processo, o informante chegou a antecipar como votaria no caso: "Oi, Erenice. O processo da ANTT (contra Bernardo Figueiredo) vai entrar mesmo na quarta-feira. Vou suscitar a preliminar de litispendncia (...)". Em setembro de 2010, Erenice Guerra foi demitida da Casa Civil, mas a troca de gentilezas continuou a pleno vapor.  
     Em junho do ano passado, Erenice, agora como uma lobista de sucesso, esteve no tribunal para conversar com Walton sobre interesses bilionrios ligados  boa e velha ANTT. Devoto da cartilha governista, no incio do ano Walton chegou a pressionar o ministro Jos Jorge para que no pedisse vista do processo de liberao do edital de concesso da Ferrovia de Integrao Centro-Oeste, que liga Lucas do Rio Verde (MT) a Campinorte (GO). A concesso, a primeira de ferrovias elaborada pelo governo,  uma vitrine eleitoral para Dilma Rousseff. Graas a Walton, que  o relator da matria, o TCU aprovou a liberao, quando alguns ministros no estavam mais na corte. Em janeiro passado, ao julgar um recurso, Walton irritou-se quando o colega Jos Jorge pediu vista do processo sobre a ferrovia, finalmente aprovado em 12 de fevereiro. No dia seguinte, a presidente Dilma anunciou o nome de um novo ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST): Douglas Alencar, irmo de Walton Alencar. Uma coincidncia, naturalmente. Como foi mera coincidncia o fato de o ministro do TCU Jos Mcio ter conversado com Lula dois dias antes de o plenrio julgar o polmico caso da compra da refinaria de Pasadena, com potencial danoso para a campanha  reeleio de Dilma. A poltica  cheia de coincidncias  principalmente quando esto em jogo interesses pblicos e privados. 

"No tenho palavras para a ministra Dilma! Ela aguentou tudo sozinha (...) 
O senador Sarney vai falar em favor da Bel com o presidente da Repblica. 
Eu sei bem a quem devo por estar no jogo. Mas um pouco mais de respaldo no faz mal."
Em 27 de junho de 2008, Walton Alencar escreve para agradecer o empenho pessoal de Dilma Rousseff na campanha de sua mulher, Isabel Gallotti, para a vaga no STJ. As mensagens mostram que Dilma fez lobby para conseguir o apoio do ento ministro da Justia, Tarso Genro, e do ministro do STF Dias Toffoli para a candidatura de Isabel.

CONSELHEIRO
INFORMAL
"O Dr. Mrcio Silva  advogado eleitoral e sempre advogou junto com o ministro Toffoli as questes do Sr. PR (presidente da Repblica). Ele gostaria de conversar com voc acerca de decises do TCU e implicaes na lei eleitoral" 
A ento secretria executiva da Casa Civil solicitava com frequncia favores ao presidente do TCU. Em 16 de junho de 2008, Erenice Guerra pede ao ministro Walton Alencar que receba o advogado Mrcio Silva, que trabalhava para o PT e para o ex-presidente Lula 

CAMPANHA IMPRPRIA
Estou fazendo algo errado? Devo entrar no cone de sombra? Devo procurar mais apoios? Quem? Ministros do STF, por exemplo? 
Alguns ministros importantes do STJ esto mandando recados para mim que, por atrapalhar a nomeao do Benedito, a Isabel jamais entrar novamente em lista. 
A Isabel no  jovem. Pelo contrrio! O presidente (Lula) acabou de nomear dois ministros com 45 anos, a mesma idade da Isabel. E o Toffoli tem 40 anos." 
Erenice Guerra e Walton Alencar trocam dezenas de mensagens para tratar da candidatura da mulher do ministro, Isabel Gallotti. Walton chega a relatar ter conseguido o apoio de pelo menos trinta autoridades polticas, incluindo senadores, governadores e lideranas do Congresso. Apesar de ser considerada jovem para o cargo, Isabel foi nomeada por Lula em agosto de 2010, quando Erenice era a ministra da Casa Civil.

"Oi, Erenice. O processo da ANTT (contra Bernardo Figueiredo) vai entrar mesmo na quarta-feira. Vou suscitar a preliminar de litispendncia (...) Abraos, W." 
Em 18 de agosto de 2010, Walton avisa a Erenice Guerra que o processo contra Bernardo Figueiredo, ento presidente da Agncia Nacional de Transportes Terrestres, entraria na pauta do TCU. O governo tinha o interesse de livrar Figueiredo, um dos auxiliares prximos de Dilma Rousseff, de eventuais punies. Walton antecipa a tese que iria defender no julgamento. 

"Ela (Marisa) quer os documentos e processos do TCU. Informei, por terceiros, que s os remeteria se aprovado o requerimento na comisso. Ela parece furiosa conosco (TCU).  a velha questo do tapeto!" 
Em 1 de abril de 2008, Walton repassa informaes a Erenice sobre a reunio que ele teria com a ento presidente da CPI dos Cartes Corporativos, senadora Marisa Serrano. Ele antecipa a Erenice, uma das investigadas pelos parlamentares, a pauta do encontro reservado e ainda ironiza a senadora tucana: "Vamos encontrar a fera!" 

"EU NO PRECISO PEDIR FAVOR"
O ministro Walton Alencar fez uma intensa campanha para conseguir a indicao de sua esposa para o STJ, mantinha estreitas relaes com a Casa Civil comandada por Dilma Rousseff, antecipava decises de interesse do governo, dava conselhos informais aos advogados do PT e, para completar, ainda dificultava a vida da oposio. Tudo isso fica evidente nas mensagens encontradas nos computadores do Palcio do Planalto. Ele, porm, nega que tenha cometido qualquer irregularidade. 

Como o senhor define sua relao com a presidente Dilma Rousseff e sua ex-assessora Erenice Guerra? 
So relaes profissionais, como tenho com todos os dirigentes do Poder Executivo, sejam de que partido forem. Acho que faz parte do exerccio da presidncia do tribunal relacionar-se com os dignitrios do Judicirio e do Executivo no dia a dia.  evidente que tanto o Congresso quanto o Judicirio e o Executivo tm questes que eles querem ver resolvidas, e o TCU resolve nos termos da legislao. No tem nada de mais. Isso  natural. No tem trfico de influncia. 

O senhor fala em trfico de influncia. J recebeu algum pedido de favor da ex-ministra Erenice? 
Pelo meu perfil, prefiro me manter longe de discusso sobre o exerccio da minha jurisdio. Todos os processos de que participei e que julguei so pblicos. A Erenice foi a responsvel pela conduo da Casa Civil em relao s obras irregulares analisadas no TCU. Ela tinha contato e ateno para regularizar as obras que eram possveis de ser regularizadas. 

Eram s sobre obras irregulares os contatos, ento? 
S sobre isso. Sempre matrias referentes  administrao pblica. No tem trfico de influncia, nunca a recebi como advogada aqui. 

A ento ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e a prpria Erenice pediram  ou receberam  informaes privilegiadas por meio do senhor? 
No que eu me recorde. Agora,  lgico que existe uma interao grande com o Palcio do Planalto em tudo. Se perguntam sobre processos, quando vo ser julgados,  a mesma informao que qualquer pessoa tem. A AGU, por exemplo, atua com tranquilidade no TCU, tem sala no tribunal e defende os interesses da Unio. No tem nada de mais nisso, no.  

Na crise da CPI dos Cartes Corporativos, o senhor recebeu gestes ou compartilhou informaes da presidncia do tribunal com a Casa Civil? 
No teve nenhuma gesto. No que eu saiba. Teve sobre as obras federais com indcios de irregularidades. Mas nada que chame  ateno. O Executivo est no pleno direito de querer saber o que est acontecendo com as obras que esto sendo executadas, at para regularizar a situao.  natural resolver suas pendncias.  

O governo fez gestes a favor do ex-diretor da ANTT Bernardo Figueiredo junto ao senhor? 
No tenho nenhuma lembrana. Acho que o Bernardo Figueiredo era um tcnico de altssima visibilidade, discutia as questes com muita segurana, tinha um trnsito muito grande na rea tcnica do tribunal, porque era capaz de discutir diretamente com o pessoal especializado do tribunal. Se tivesse recebido qualquer gesto em favor dele, eu com certeza me lembraria. No recebi nenhuma gesto. 

O senhor tratou de interesses pessoais com Erenice, como a indicao de sua mulher para o STJ? 
Minha mulher tem a carreira prpria dela,  funcionria pblica de carreira, era magistrada de carreira quando foi indicada para o STJ. No tem nada disso. 

O senhor pediu a ajuda de Dilma Rousseff para a indicao? 
Minha esposa tem os contatos dela. Ela no precisa da minha ajuda. Quando foi escolhida para o STJ, eu j no era nem presidente do TCU. 

Mas o senhor ajudou sua mulher a conquistar apoios para ser indicada ao STJ? 
Se voc  casado, participa do dia a dia da sua esposa. Qualquer pessoa casada um dia participa das atividades do cnjuge. Mas  difcil para mim dizer. O que voc quer dizer com ajuda? 

O senhor pediu favor a algum no Palcio do Planalto? 
Eu no preciso pedir favor. O currculo da minha mulher fala por si mesmo. 


3#4 DE BOCA EM BOCA
Com os 300.000 reais que o tucano Pimenta da Veiga recebeu do valerioduto, mais os 2 milhes de reais do petista Fernando Pimentel, a disputa eleitoral em Minas mostra que negcio bom mesmo  "consultoria verbal".
IVANA MOREIRA, DE BELO HORIZONTE

     O petista Fernando Pimentel, 63 anos, economista, lidera as pesquisas para o governo de Minas Gerais, com 37% das intenes de voto. Seu rival mais prximo, o tucano Pimenta da Veiga, 67 anos, advogado, est 14 pontos atrs, com 23%. Dessemelhantes em ideologia, idade, profisso e desempenho eleitoral, os dois tm uma similitude curiosa: so consultores fabulosos  e praticam uma modalidade particularmente informal:  a consultoria verbal, oferecida ao cliente numa conversa pessoal ou telefnica. 
     Pimentel, o petista, entre 2009 e 2010, perodo em que ficou sem cargo pblico, teve uma consultoria, a P-21, que oferecia servios de "administrao financeira e tributao'". Na carteira dos principais clientes estavam a Federao das Indstrias de Minas Gerais e uma empreiteira do grupo Convap. Teve sucesso retumbante. Ganhou 2 milhes de reais em menos de dois anos. Para alguns clientes, entregou relatrios por escrito. Para outros, prestou "uma consultoria direta" Com vida curta, a P-21 encerrou as atividades no fim de 2010. 
     Pimenta, o tucano, tambm estava sem cargo pblico em 2003, quando prestou consultoria a duas agncias de propaganda mineiras, SMP&B e DNA, que gozavam na poca de boa reputao mas logo ficariam conhecidas como alavancas do valerioduto, o canal atravs do qual o notrio Marcos Valrio, scio das duas empresas, abastecia o mensalo petista. Por seus servios jurdicos de "orientao empresarial". Pimenta recebeu 300.000 reais, em quatro parcelas de 75.000 cada uma, entre maro e abril de 2003. No seu caso, prestou consultoria apenas verbal, por telefone. Nada de relatrios escritos. 
     A comparao entre os dois candidatos, porm, no  perfeita. Quando a consultoria de Pimentel, o petista, veio a pblico, em dezembro de 2011, ele apresentou os contratos assinados  entre eles, o da entidade da indstria, que lhe rendeu 1 milho de reais  e exibiu notas fiscais emitidas contra cinco clientes, embora no tenha permitido que a imprensa fotocopiasse os documentos. Pimentel nunca foi investigado, indiciado nem denunciado. 
     Pimenta, o tucano, jamais apresentou contrato com as empresas de Marcos Valrio porque foi um "acerto verbal". O pagamento foi realizado por meio de depsito em sua conta bancria, sem contrapartida de nota fiscal, e a prpria declarao dos 300.000 no imposto de renda s foi feita depois que o caso estava sob investigao. Assim, sem nenhum documento para calar sua verso, Pimenta est indiciado pela Polcia Federal sob suspeita de lavagem de dinheiro. Ele denuncia que est sendo perseguido pela PF petista, interessada em prejudicar sua candidatura, e diz que contrato verbal, sem papel nem assinatura,  coisa corriqueira. "'Quando as partes se conhecem, isso  muito comum. Em dez anos de advocacia, tive cerca de 100 clientes, entre pessoas fsicas e jurdicas. E, se assinei contrato com dez clientes, foi muito." 
     VEJA ouviu quatro das maiores agncias de propaganda de Minas. Todas disseram que nunca precisaram de consultor jurdico e, se um dia viessem a precisar, assinariam um contrato mesmo que o profissional fosse conhecido. Diz o dono de uma das agncias: "Hoje em dia voc assina contrato at com o pintor que vai pintar uma parede na sua casa...". Das quatro agncias, apenas uma achou que no seria de todo descabido um contrato verbal, "Em Minas, as agncias so geridas pelos donos, ento  at possvel um contrato verbal."' 
     O proprietrio de uma agncia contou a VEJA que contrata um advogado  paga 8500 reais por ms  para resolver assuntos jurdicos cotidianos da empresa. Nunca precisou de um consultor, mas, quando enfrenta algum problema maior, recorre a um escritrio de advocacia, e no a um consultor. E assina um contrato.  possvel um acordo verbal com um advogado amigo, como diz Pimenta? Sim,  possvel. Mas o painel colhido por VEJA mostra que contrato de boca est longe de ser uma prtica comum no mercado mineiro. 
     Como consultor, Pimenta diz que examinava contratos e esclarecia dvidas legais. Quase sempre por telefone. "Lembro que um dos contratos que examinamos era com a Usiminas", afirma. Na poca, a SMP&B tinha uma carteira de pelo menos trinta clientes, dez dos quais eram estatais e rgos pblicos, como Cmara dos Deputados e Correios. 
     Depois de ouvir Pimenta, a PF enviou o inqurito policial ao Ministrio Pblico, em abril deste ano. Um ms depois, os procuradores devolveram a papelada e pediram novas diligncias, as quais os agentes federais devem concluir a qualquer momento, mas no tm prazo para faz-lo. Assim, j se passam mais de dez anos do pagamento dos 300.000 reais, e Pimenta at hoje no foi julgado. O interminvel adiamento do caso, em outras circunstncias, poderia ser uma vantagem em busca da prescrio de um eventual crime, mas tornou-se um prejuzo bvio. Afinal, candidato indiciado pela PF no  coisa que o eleitor aprecie. Em termos de complicaes judiciais, Pimentel tambm acompanha Pimenta. Ele  acusado de improbidade administrativa em pelo menos trs processos judiciais. 


